PAF! E mais uma janela da vizinhança virara lenda. Constantino era um garoto do capeta morador de um bairro afastado da cidade de Jozolândia, e por ter esse seu jeitinho todo especial nunca teve um amigo.
Passava os dias andando pelas vizinhanças com seu estilingue, atirando em tudo que poderia ser quebrado ou danificado por ele. Seu sonho era poder voar livremente pelos céus e achar outro lugar pra morar.
Sua mãe, dona Constantinopla, e seu marido, Júlio César não sabiam mais o que fazer com o filho, que todo dia voltava com três ou quatro B.O.s pra casa. A mãe trabalhava em casa: era custureira, além de cuidar dos serviços gerais da casa. Seu pai era general do exército e quase nunca estava em casa, e seus assuntos do trabalho eram importantes e secretos demais para serem discutidos em casa.
***
Fazia um dia nublado no começo do outono da cidade. O frio cortante fazia todos ficarem dentro de suas casas, mas um garoto andava nas ruas, num visual ridículo de um grande agasalho e um shorts.
Segurando seu estilingue, Constantino estava avaliando qual janela seria melhor para ser quebrada, quando ouviu, de dentro de uma moitinha, o guincho assuntado de uma criaturinha. O garoto foi verificar o que era e viu a coisa mais bonitinha que teria pensado encontrar: um urubú com as asas sangrando.
O colocou numa gaiola e o levou para casa. O garoto, que escondeu o bichinho de seus pais, cuidou dos seus ferimentos e o alimentou (quando dava-lhe banana e alpiste, vomitava, endoidecia; mas se lhe dava carne estragada, batia as asas e agradecia).
Vários meses se passaram e o garoto ficou muito amigo do seu urubú. Juntos, eles andavam pela vizinhança matando animaizinhos e quebrando a propriedade alheia. Mas uma vez a história acabou mal.
Seu Menderson, um habitante local, cansado de ter suas janelas quebradas, decidiu resolver o problema de uma vez por todas. Pegou um grande pedaço de fita crepe bem grossa e potente, e a forrou de algodão, menos numa das pontas.
Quando, pontualmente, Constantino passou para atirar em sua janela, Menderson pulou de uma moita e colou a ponta de fita na bunda do garoto, e, mais rápido do que puderam acompanhar, riscou um fósforo e fez o “rabo” de algodão pegar fogo. Depois entrou em casa e se trancou.
O garoto entrou em pânico, começou a rolar no chão mas o fogo só se espalhava pelo seu corpo, fazendo-o se debater pelas ruas. Seu urubú, num ato heróico, se atirou no amigo, levantando-o no ar com as patas, na esperança de que o ar apagasse o fogo.
Estavam voando a dez minutos quando o urubú percebeu que o garoto agora era apenas uma massa negra disforme. Então, suavemente pousou e devorou seu antigo dono, saboreando cada pedaço de carne que tinha em seu corpo.
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